Entrevista: Falámos com Matuê acerca do seu primeiro álbum

Matuê é o nome artístico usado por Matheus Brasileiro, rapper brasileiro oriundo de Fortaleza que acaba de lançar o seu primeiro álbum de originais com o nome "Máquina do Tempo".

Tivémos oportunidade de falar com o mesmo acerca desta nova étapa da sua carreira, do que tinha sido construído até então e de tudo o que envolve o lançamento em questão desde que foi planeado até a um futuro próximo.

O disco novo está em todas as plataformas de distribuição digital habituais e é composto por um total de 7 temas inéditos lançados todos em simultâneo com curtos visualizers que formam toda uma história e conceito à volta do mesmo.

RAP NOTÍCIAS: Depois de três anos de singles soltos surgiu um primeiro álbum. Achas que existe uma altura certa para o fazer na carreira de um artista mesmo tendo em conta a atual indústria da música?

MATUÊ: Na minha visão, eu acho que cada artista tem entender o seu conceito e perceber por onde começar consoante a sua visão artística. Falando de mim e do início da minha caminhada, não me sentia pronto ou preparado para entregar um disco porque os discos que mais me chamaram atenção, sempre eram conceptuais, com uma mensagem, com uma identidade mais do que singles compilados. Como o que eu estava a fazer era mais virado na onda dos singles, esperei até a altura de me sentir preparado para entregar uma obra.

RN: E a altura em que te sentiste pronto, teve a ver com a chegada a um conceito do disco? Ou simplesmente sentiste que era a altura e começaste a trabalhar num conceito?

M: Eu acredito que a ideia de fazer um disco surgiu que nem uma brincadeira mas começámos a perceber que estava a apontar para isso. Eu até à altura sempre pensei em não repetir muito os temas, as sonoridades e até as maneiras de fazer marketing à volta dos lançamentos. Na altura de pensar neste disco em conjunto começámos a imaginar no que poderíamos fazer para o pessoal consumir como um todo e aí começamos a fazer um desenvolvimento conceptual com alguns temas (poucos) já começados e que já envolvia todos os aspetos, incluíndo maketing, aspeto visual e afins.

Esta altura já bateu com a altura da pandemia na qual me senti um pouco perdido do que era a minha visão e função artística muito devido à ausência de estrada e contacto com fãs.

RN: Na altura de fazer o lançamento tu pensaste se seria a altura ideal para o fazer, tendo em conta a atual situação do mundo e ausência de concertos e afins?

M: Com esta alteração à escala mundial trouxe muito uma reflexão/uma auto análise às pessoas de uma forma forçada após recolha para proteger-se a si e aos seus, numa altura que para mim foi (e continua a ser) quase como uma batalha espiritual que acaba por se refletir neste disco que fala da caminhada espiritual de um personagem que caminha no tempo para salvar o mundo de uma calamidade que aconteceu. Dentro dos seus poderes sobrenaturais o personagem tenta establecer uma conexão entre o ser humano e a natureza, entre uma cura ou renovação que é algo que só se pode ler nas entre-linhas do disco, não diretamente na letra. Fala também como lutar contra os teus demónios, ansiedades e dúvidas.

Dentro do processo de criação então surgiu também essa dúvida de lançar ou não durante a pandemia, algo que se reflete muito no tema "777/666" que liga o que eu tava a passar naturalmente e o que ta a acontecer ali na vida do personagem.

RN: Para quem ouve Matuê sabe perfeitamente que existe um "elemento viciante" nas tuas músicas. Tu sentes que tens alguma fórmula para criar músicas que faça os teus ouvintes revisitar com facilidade os teus temas?

M: Até então eu não acreditava em fórmulas, eu na verdade até criava as minhas músicas tentando desfazer fórmulas. Como sempre fui músico eu sempre fui criando alguns vícios musicais e uns dos meus maiores exercícios era mesmo desfazer vícios para então criar novos vícios.

Então quando eu comecei a focar-me na música rap depois de ter criado outros géneros musicais como o Punk Rock ou o Reggae, foi quando eu me senti mais maduro como músico sendo que tínha um domíno sobre a escrita, o processo de criação musical ou até mesmo a gravação em estúdio. Só depois disso é que eu senti que a altura ideal para ir a solo era "agora".

De "RNB" até "Kenny G" foi a altura de recriar novas abordagens, sonoridades, cadências, energia dos beats. Por isso é que os lançamentos todos tem poucas similaridades por este motivo. Hoje em dia eu já penso um pouco diferente porque eu fazia músicas chegando a estúdio capturando a energia do momento, agora eu já posso pegar em tudo o que aprendi e brincar com isso.

RN: Dentro do movimento trap no Brasil existem muito poucos artistas que conseguiram furar para fora do movimento e cultura em si. Tu és dos poucos que conseguiste furar essa barreira para ir tocar em outros públicos. Como achas que conseguiste esse feito aí no Brasil?

M: Nós sempre buscámos isso desde o início e quando eu comecei achei sempre que o rap no brasil era um pouco "carente por melodias". Era uma época que o "boom-bap" e o foco na lírica estava com muita força, muito mais do que a música que estava por trás. Quando eu comecei sempre sonhei com ouvir o meu público a cantar. Não esquecendo da importância da letra e dos flows, na minha visão e agrado uma boa melodia e uma boa harmonia é sempre o que faz uma boa música, para cada pessoa há-de ser diferente.

Como sempre já ía acompanhando o trap que se fazia nos Estados Unidos. E eu acreditava que era possível replicar o sucesso desse género cá se fosse feito de uma forma inteligente tanto na parte musical como na parte comercial em que vendemos o nosso peixe.

RN: O facto de teres vivido nos Estados Unidos também te influenciou, seja no género musical que fazes como nas estratégias que usas com o teu trabalho? 

M: Eu vivi nos Estados Unidos muito novo, desde os meus 8 anos até aos meus 11/12 anos. Nessa fase eu peguei muito forte o rap e a cultura americana do bairro onde morava porque morava na Bay Area, muito próximo de Oakland, uma zona muito tradicional da West Coast mas a única coisa que eu sinto que permaneceu dessa minha vivência foi a questão do inglês e o fácil acesso a conteúdo inglês tornando uma ligação a cultura Hip-Hop americana sempre permanente e acompanhada muito próxima.

RN: Na altura em que noticiaste o disco, foram mostradas imagens acerca de merchandising do disco, tanto numa banda-desenhada assim como em roupa. O que podemos esperar ainda mais de "Máquina do Tempo" e de Matuê num futuro próximo?

M: Em relação ao merch nós decidímos fazer tudo algo meio que não-convencional seja no marketing, no conceito visual etc. Então realmente desenvolvemos o conceito ainda mais do que apenas o que está no disco com a existência de um comic book que vais explicar a história com todos os detalhes e um pouco mais das referências que incluém também pessoas históricas conhecidas por viajar no tempo, mas é algo que será oficialmente revelado nas próximas semanas.

Quanto a mim? Eu vou sempre buscar o meu próximo passo e vou em busca do mesmo seja com um novo projeto ou uma nova música ao mesmo tempo que os artistas mais novos e mais antigos vão crescendo e evoluindo em conjunto com a cena de cá para que todos em conjunto cheguemos mais longe sendo todos valorizados como um todo e deste modo conseguirmos que esta geração consiga deixar a marca que outras gerações também deixaram.

RN: Obrigado pela conversa Matuê, e volta a Portugal assim que possível.

M: Eu é que agradeço e espero voltar assim que possível.

Texto/entrevista por João Moura;

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